Ando lendo muitos provérbios por conta de um trabalho (em grupo! - cá estou eu novamente, sem um pingo de vergonha na cara) que se propõe a explicar o sigificado de algumas máximas latinas. Creio que se certas coisas acontecem não à toa, ou por capricho da Fortuna, elas servem pra algo. Pois bem, tenho me entretido com certas coisas ultimamente que, quanto mais eu leio os provérbios, mas eles se encaixam perfeitamente a qualquer tipo de situação e, nesse sentido, reafirmo que a vida é um ciclo.
Que não se repete ipse litteris, obviamente. Mas o mundo é mundo desde sempre. E eu não estou sozinha nas minhas observações e espanto. "De noite, todos os gatos são pardos" me remete a uma série de fatos que de repente são uniformes, como um dever de ser. E séries análogas me deixam mais precavida, algo como pisar em territórios conhecidos. Até que realmente algo muito furioso e imprevisto me destrone do meu reino. Mas tenho certeza que também para isso hei de encontrar alguma máxima, deixe estar.
12.12.09
29.11.09
Perdendo dentes
Perder as coisas que você luta mas que depois não tem como manter devido ao seu conformismo diante das coisas é um fato terrivelmente frustrante e até certo ponto correto, já que deveria ser uma lição. Mas isso não acontece comigo porque eu insisto no erro. A preguiça que transcende a boa vontade. Então é mais um débito no saldo negativo na ressaca moral de perder seu tempo e não ver resultado. E as coisas acumulando e você arranjando mais sarna pra se coçar. Eu me pergunto se o problema é meu intento de absorver o maior número possível de objetivos - o que me leva a uma estafa eterna mesmo nas minhas férias -, que não me leva a lugar alguns e só me arrasta pra trás ou se sou eu que não dou conta do recado, tendo em vista que milhões de pessoas como eu fazem diversas coisas ao mesmo tempo e - surpresa! - ainda têm tempo de tomar um sorvete na pracinha. Eu estou aqui, no meu lar, há três dias sem fazer absolutamente nada e já são oito horas da noite e amanhã tenho duas provas que não tenho a mínima noção da matéria - e não estudei. Ok, o problema é comigo. Sou meu próprio inimigo, e não sei como me vencer.
18.10.09
Sobre vocação e essas coisas
Eu sempre tive inveja de quem me dizia, de plano, o que pretendia ser, qual a carreira vai seguir. Inveja porque, bem lá dentro da mente, eu ainda não tinha muito bem definida a escolha. Não que a gente precise determinar tudo o que acontecerá, como se dependesse exclusivamente de nós. Mas um rumo é importante quando você se descobre adulta e com responsabilidades pessoais. E eu só sabia o que não queria ser.
Eu andei batendo muito a cabeça por aí, achava que nunca iria me convencer que o que eu escolhesse, era o realmente indicado. Um sentimento egocêntrico de desperdiçar talentos. Talvez sim, talvez não, o fato é que qual plano fizesse, não bastava. Eu tinha um futuro pela frente, ei, eu ainda tenho, mas tudo muito vago e disperso em preferências de estilo que não se adequam à praticidade da vida. Então se você gosta de animais vá fazer veterinária; se curte malhar vá fazer educação física; se o seu lance é ler, Letras. Mas isso não servia pra mim.
Não só a nível de faculdades e estudos, mas com relação a essa parcela da vida que se chama trabalhar, e que é importante para a caracterização do indivíduo. A pessoa tem que saber o que colocar no campo "profissão" quando preencher uma ficha, e "estudante" para sempre não é legal. Retomando, eu falava de vocação.
De um tempo pra cá uma idéia me tomou de assalto - bem machadeano eu diria, com um homenzinho fazendo um "xis" com os braços e pernas: decifra-me ou te devoro. E eu não tinha olhos pra ver o que esteja sempre ali, só precisando de um fósforo. Risquei, ele acendeu, eu li claramente: eureka, é isso! lógico! que burra!
De uma forma ou de outra, se encaixa perfeitamente aos meus propósitos de vida e honra familiar. Estranhamente, nada é desperdiçado, eu não perdi tempo com nada, ao contrário, eu ganhei um tempo preciosíssimo, que agora vejo como aproveitar. E agora lá no fundo do peito eu tenho um orgulho e uma calma de esperar que só quem sabe o que quer fazer da sua vida deve ter.
Não tenho nada ainda, só aquele medo de estar sonhando muito alto e ficar frustrada depois, mas aprendi a não sofrer por antecipação. Estou no meio do processo, estou no caminho certo e, por enquanto, isso me basta. Tenho que me preparar, e muito, e absurdamente esgotar-me, e amargamente lutar contra as minhas limitações, e ser uma suicida em potencial (rs). Talvez essa sobrecarga intelectual que há anos cultivo vá se esvaziar daqui há algum tempo, e eu desejo ardentemente isso, só pra me encher novamente com o triplo de livros e estudos. Talvez a vida seja isso: preparar-se, e preparar-se, e preparar-se, num looping eterno. Só que, agora, os mastros estão na direção certa, apontando para o norte. Avante, que o vento (e Deus) me ajude.
20.9.09
De Profundis
Sobre Bosie e sua falta de imaginação.
Sobre Oscar Wilde, cortesão do espírito, terrível e fabuloso.
Um individualista, quando encontra outro mais ainda, e deixa de ser egoísta, é a queda fatal.
O triste fim de um gênio. E não era nada disso que eu queria dizer.
A espera é a pior maldade. porque ela aflige um ser que está só, à espera. quem espera sempre alcança, três vezes salve a esperança. e ninguém quer ficar só, à espera, porque esperar é suspender o exato instante em que se vive, e se espera, por um fato ainda não ocorrido, e presumivelmente mais importante que este. e o sujeito se anula, no momento, numa agonia pelo desconhecido. e nada faz com que o distraia: ele não se desvencilha. e quando ele é enganado por quem se espera alguma coisa, e descobre a fraude, ele é pra sempre prisioneiro do seu desejo.
ou:
Vivemos pra tentar esquecer.
ou:
A salvação pode ser a sua perdição.
ou:
De nada adianta postar-se de fora.
ou:
Bosie foi o que foi, ou o que deixou de ser, porque, no fundo, era um ser encantado. o maior moralista dos imorais. uma criança mimada, e dizem que elas são as mais encantadoras. ele nunca o enganou, veja bem. e o pior que Wilde sabia disso. mas quem se desvencilha? então eu acho que o amor não é uma cegueira, nem a paixão o é, a pessoa enxerga muito bem, sim senhor. mas não se importa.
ou:
Gente insignificante também entra para a História.
Porque viado que é viado consegue me estraçalhar de tal forma que me dá vontade de xingá-lo de viado.
23
"Deixo fluir tranqüilo
Naquilo tudo que não tem fim
Eu, que existindo tudo comigo,
depende só de mim
Vaca, manacá, nuvem, saudade
Cana, café, capim
Coragem grande é poder dizer sim"
[Caetano]
É um transbordar de invenções malévolas ao corpo como redenção de alma;
É um nada-poder-se-fazer com o-que-não-se-tem;
É um chafurdar-se em letras planas, para pessoas planas, e claras, e lógicas, que chegam a alvejar ao branco;
É sonhar com o dia seguinte na cama que não cabe tamanha especulação, de ficar as costas doendo;
É um não regenerar-se da pele como reflexo do que há por baixo, em contínua perda de elasticidade;
É um não se fazer entender para não se expor o que deveria ser o óbvio ululante e, no entanto,
é querer se fazer entender pelo não-dito;
É conservar as linhas de expressão do rosto qual marcas de uma experiência ainda em teste, a rodopiar e espreitar as surpresas;
É querer te ligar e saber como foi o seu dia, com quem esteve, quais seus caminhos e o que pensa de mim, sem que isso pareça interesse algum;
É planejar e planejar de novo, pra depois mudar tudo e fazer o contrário, ou não fazer absolutamente nada;
É ver tudo embaçando à sua frente numa metáfora do limite do ser;
É carinho e compreensão egoísticos de quem não consegue guardar rancor;
E tudo é tão calmo, que transcorre em anestesia.
E nú, com a minha música,
afora isso somente amor.
21.4.09
De uma pessoa querida
Às vezes coloca uma flor no cabelo. Às vezes não quer conversar. E eu não sei como dizer a ela o quanto eu gosto muito muito dela sem que isso pareça afetividade excessiva. Porque eu sou rude e falo coisas grosseiras, acho que ela nunca mais vai falar comigo na sua vida. A gente passa um tempão sem se ver e é sempre a mesma história: cuidado e atenção. E eu sei que ela será uma pessoa iluminada e terá muita sorte na vida, porque uma pessoa tão boa assim só pode ter coisas boas da vida. Eu a imagino porcelana: sei que as situações que passamos só nos fazem envelhecer antes do tempo, mas ela não. Permanece muito delicada, muito alva de espírito. Ou então, pode ser um tormento dentro, mas não transparece nem uma brisa de verão. Ela é primavera, isso sim. É o que eu queria ser, mas que saiu errado. Será que seremos amigas sempre? Não sei. Isso nunca se sabe. Mas farei de tudo pra ter notícias dela mesmo quando ela não quiser saber notícias minhas.
Um instante maestro
Eu já não sei mais o que fazer. Aliás eu nunca soube. E me pergunto se alguém sabe, porque, sinceramente, só vejo gente perdida.
Como seria bom saber tocar um instrumento, pra num lamento a manhã nascer azul.
(Eu senti uma angústia vindo daqueles olhos, justamente alguém que poderia me dizer que conseguiu chegar ao topo do seu mundo, trabalhando, sendo honesto, estudando, mas a sua mansidão e o trato comigo e com todos passa uma humildade de um alguém acuado, de uma tristeza infinitamente maior do que eu posso compreender, e eu me senti estúpida pensando assim porque, ei, a ferrada na vida sou eu, ele vai sair daqui com motorista enquanto eu conto moedinha pro ônibus, mas mais uma vez eu me senti uma estúpida porque essas conjecturas podem ser todas uma estupidez. então ele continua na sua vida em silêncio, sem a gente saber nada sobre ele, ou apenas fragmentos, que mais uma vez reforçam a sua imagem passiva diante de mim e meu cérebro doentio.
Ele é uma pessoa muito frágil, anda curvado, não faz barulho quando anda, nunca se irritou com o meu amadorismo e fala como se fizesse um esforço danado pra ser o mais baixo e suave possível, no limite do tom de voz e de gravidade que vem da sua masculinidade. pede obrigado e desculpa sempre que consegue encaixar essas duas palavras nas suas frases, sorri quando eu sinto que a pergunta que eu fiz foi a mais tola possível e, mesmo assim, eu não consigo me dirigir a ele com confiança, acho até que ele me considera uma pessoa "bobinha", meio que burrinha. talvez eu seja mesmo. ele merecia alguém melhor para ajudá-lo, não eu. não por não ser competente, é pelo entusiasmo que não tenho com o meu dever de aprender.
Ele ainda pode se irritar muito comigo, pode mudar comigo a qualquer momento, mas a sua imagem nunca vai mudar pra mim. infelizmente.)
Fios
Imagino que são fios o que nos prendem. finos como o de uma aranha, quanto fortes. como os dos neurônios. mas aqueles são retos, todos retos, feito malha de rede, para se deitar. ou para manter-nos de pé. as idéias todas de pé. e eles se desfazem no contato, se refazem à distância. e invisíveis, tanto que a gente nem sabe que eles estão lá, mas pressente.
eles já foram cortados em algum momento que eu não sei, para sempre, mas que nunca existiu porque nunca foram tecidos totalmente. voltando para um status quo antes apenas idealizado.
Uma música da Ana Carolina
Você já esteve na rua no momento em que a cidade se acende, e parece começar a partir dalí, onde você está, cabeça baixa olhando o chão e todas as luzes ligadas ao mesmo tempo, te obrigando a levantar, fazendo um corredor por onde você passa e por onde você passará, e acha aquilo tudo muito muito bonito e significativo e tudo, você ali despreparada contra o que vem dos outros, da vida, infinitamente frágil e maleável e o resto. e é engraçado de uma graça sem riso sem estouro sem ápice perceber o momento do dia em que já não dá mais pra resolver as coisas, as lojas se fechando, o dia que já não é dia, é volta, as pessoas apressadas tomando seus assentos, para desperdiçarem longas horas paradas, e você não é uma delas, porque ainda não acabou, se foi apenas uma parte, começa outra e que você não tem a mínima pressa de acontecer, e fica muito feliz de não fazer parte daquilo e muito triste por não fazer parte daquilo, porque não há para onde voltar, ou para quem voltar. porque você não tem as responsabilidades que as pessoas maduras garantem que são realmente sérias, porque mesmo matando um leão por dia elas vão dizer que essa fase é a melhor de toda uma vida e você, pobre coitada, não consegue enxegar agora, que todas as suas aflições, medos, preocupações não passam banalidades frívolas e juvenis, todo mundo passa por crises de identidade, são os hormônios, é tudo químico-biológico-sociológico, somos fantoches, use filtro solar. e antes que tudo vire um clipe do queen e david bowie você presta atenção nas luzes. ninguém presta atenção nas luzes. só quando elas não estão lá, e está escuro. e ninguém é obrigado a prestar atenção nas luzes. porque elas estão lá. tudo está no seu devido lugar. ou caminhando para. mesmo parado. e você ali, iluminando alguém que te espera, ou que por você é esperado. ou que não se espera.
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